É claro que não. Do contrário, não teriam construído um país mais rico que o nosso (mesmo que à custa da exploração de nossas riquezas, mas, mesmo para explorar, é necessária certa inteligência). O que não quer dizer que um país pobre seja constituído de burros, a inteligência não é o único pré-requisito para a riqueza, embora seja um dos necessários.
Por que, então, os portugueses são vítimas de nossas piadas? Algumas razões históricas já foram apontadas para isto, inclusive se mostrando que esta relação sempre existe entre inimigos históricos – vide a famosa antipatia entre ingleses e franceses, por exemplo. Argentina e Brasil duelam não apenas no futebol, mas também em piadas. Portugal e Brasil nunca foram inimigos, mas a relação colonizador-colonizado geralmente é marcada por alguma tensão, por animosidades veladas ou explícitas, e no caso destes dois países não e diferente. Colonizadores também costumam colocar colonizados no papel do “burro” da piada.
Aliás, o que tem o animal burro a ver com a pouca inteligência? O próprio fato de ser um animal já justificaria, em parte, a comparação, mas, fosse assim, todos os animais poderiam ser utilizados como xingamentos equivalentes à estupidez. Não é o que acontece. Segundo o Houaiss, a etimologia da palavra “burro” nos aponta ao latim bur(r)ìc(h)us, um diminutivo que significaria “cavalinho”. Mas, no sentido de estúpido, viria mesmo de burrus, aquele que ficaria “vermelho após comer e beber”. O sentido se ampliou posteriormente.
Avançando nas digressões, você já reparou que “emburrar” vem do “burro”? Emburrar é “empacar”, geralmente no mau humor. Mas, que engraçado, o que tem a paca a ver com isto?! Por que o burro empaca e a paca não emburra?!
O Houaiss cita alguma outras construções derivadas de “burro”, algumas bastante inteligentes, isto é, criativas, como “burricídio”. Ou “desemburrante”, que deve ser algo feito especificamente para desemburrar.
Fim das lucubrações. Voltemos aos portugueses. Portugueses não são burros, e ponto final. Mas, segundo alguns, eles teriam um “pensamento concreto”. Isto é, tomam tudo na literalidade. Rosana Hermann é uma das que acredita nisto, e conta a seguinte história para exemplificar: uma amiga sua foi ao sapateiro, em Portugal, e pediu a ele que trocasse os saltos de seu sapato (estavam gastos). Ele trocou o esquerdo com o direito. Quando ela questionou o trabalho, recebeu a seguinte resposta: “Ah… Mas então a senhora não deveria ter pedido para trocá-los e sim para substituí-los!”.

Já vi algumas histórias semelhantes. Mas acho pouco para se concluir a respeito do modo de pensar de todo um povo. Ora, se assim fosse, os portugueses nem teriam dicionários, já que usariam a tão almejada língua buscada por alguns, a dos significados únicos. Ou teriam um dicionário assim:
“Substituir: (verbo) 1. substituir.
Trocar: (verbo) 1. trocar.”
Longe da realidade…
Porque, sendo assim, seriam incapazes de compreender metáforas. Diriam: “Amar não quero, ora pois, se amor é fogo que arde sem se ver. Queimaduras ardem muito, ô pá! E ainda mais se não as podemos ver, como iremos delas tratar?”
Pois bem, “amor é fogo que arde sem se ver” é um dos versos mais famosos da língua portuguesa, um dos exemplos mais clássicos de metáfora e, tão antigo que é, é considerado parte dos textos fundadores da língua portuguesa moderna. Foi escrito por Camões, um… português!
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(mais sobre distúrbios do pensamento)
(post original de Rosana Hermann)