Arquivo por categoria língua portuguesa

METALINGUAGEM

Metalinguagem, segundo o Houaiss: “linguagem que serve para falar sobre uma outra linguagem”.

O cinema pode ser metalinguístico, quando fala do próprio cinema (exemplos: “Cinema Paradiso”, “A rosa púrpura do Cairo” etc.). A música pode ser metalingüística (ex.: “Eu não sei fazer música”, dos Titãs).

metalinguagem-fotografia
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OBESIDADE – REDUNDÂNCIAS E AMBIGUIDADES

obesidadeSegundo recente pesquisa, gordura abaixo da pele da barriga não faz mal à saúde.

E acima?!

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A bem da verdade, não sei se classifico a manchete como “ambígua” ou como “redundante”…

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(pesquisa aqui)

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XUXA, O TWITTER E O TETO DE VIDRO

A apresentadora Xuxa esteve envolvida em uma polêmica no Twitter esta semana (isto é, se o perfil não for fake…). Recém-chegada ao mundo virtual, aparentemente, começou escrevendo em CAPS LOCKS. Disseram a ela que não era de bom tom.

Ela se desculpou, EM CAPS, dizendo que era apenas seu “jeitinho”. Logo em seguida, ela “twita” (ou “tuita”? E agora, Houaiss? Quantos anos até aceitar alguma destas palavras e “legislar” sobre?!), ela “twita” o seguinte: “OPS , ESCREVI SEM LER SAIU ERROS DE PORTUGUES”.

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TROCATIVOS CRIADILHOS – DIGO, TROCADILHOS CRIATIVOS…

O quiabo veste Prada - trocadilhos

No finalzinho das gramáticas encontramos uma parte chamada Estilística, parte que comumente os professores pouco se aprofundam, muito mais preocupados que estão alguns em ensinar o que é um “período composto por subordinação” do que em ensinar o aluno a escrever com elegância.

Na Estilística estudamos as chamadas “figuras de linguagem”, entre as quais se incluem a metáfora (figura de palavra), o pleonasmo (figura de construção), o eufemismo (figura de pensamento) etc.

Não me lembro de ter visto em alguma gramática o trocadilho entre as figuras de linguagem, embora claramente seja uma.

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LIVRO REÚNE 4500 FRASES-FEITAS

Pai dos burros, de Humberto WerneckO jornalista Humberto Werneck está lançando “Pai dos burros”, livro que é uma coletânea de 4500 frases-feitas, isto é, clichês, como “jurar de pés juntos”, “num futuro próximo” etc. Humberto os colecionou por cerca de 40 anos – às vezes, levantando-se para anotar uma que lembrava no meio da noite.

Humberto é considerado um dos jornalistas brasileiros que melhor escreve, e um dos seus truques é justamente subverter o clichê. Sua principal fonte para o livro, paradoxalmente, foi o (mau) jornalismo de colegas: “O uso do lugar-comum denota preguiça, falta de imaginação e insegurança.”

Em entrevista, Werneck afirma ainda: “linguagem velha não seduz”. “Quando o leitor me abandona no meio do texto, ele está me decapitando.”

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Em um post anterior, sobre a nova lei do estupro, há um exemplo intencional de lugar comum: “terminantemente proibido”. Alguém já viu, por acaso, a palavra “terminantemente” ser usada em outro contexto?!

Aliás, dou uma olhada no Houaiss agora e vejo que ele nem a registra…

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(notícia original aqui)

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"LÍNGUA" – CAETANO VELOSO – vídeo, letra e interpretação

As gramáticas e os manuais de estilo sempre falam contra o clichê. Entretanto, quase todos caem em um: citar a música “Língua”, de Caetano Veloso, e o poema “Língua Portuguesa”, de Olavo Bilac. Como se mais nada de interessante no campo da metalinguagem houvesse sido criado em séculos de produção em português – mas, justiça seja feita: são duas obras poderosas, especialmente a de Caetano que, além de palavras, nos dá ritmo.

Na internet, ao menos há uma vantagem: podemos disponibilizar o vídeo de Caetano cantando (bela aliteração…) esta música.

Vídeo de “Língua”, de Caetano Veloso

(Caetano cantando “Língua” com Elza Soares e Chico Buarque, em um vídeo mais antigo: aqui)

Letra de “Língua”, de Caetano Veloso

Gosta de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”
Fala Mangueira! Fala!
Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?
Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé
Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?
Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
(– Será que ele está no Pão de Açúcar?
– Tá craude brô
– Você e tu
– Lhe amo
– Qué queu te faço, nego?
– Bote ligeiro!
– Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
– Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
– I like to spend some time in Mozambique
– Arigatô, arigatô!)
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem.

Interpretação de “Língua”, de Caetano Veloso

Mais interessante que apenas reproduzir a letra de “Língua” seria tentar interpretá-la. Não é uma tarefa simples, pois é uma composição que, embora às vezes pareça nonsense, é cheia de citações que, para serem entendidas, exigem uma grande cultura linguística.

Cinco exemplos:
* “gosto de ser e de estar” – é uma comparação com o inglês, que tem apenas o verbo “to be” para significar “ser” ou “estar”. O português seria melhor, portanto, neste aspecto: é diferente, por exemplo, dizermos “eu sou doente” de “eu estou doente”.
* “gosto do Pessoa na pessoa / da rosa no Rosa” – citações ao poeta português Fernando Pessoa e ao escritor brasileiro Guimarães Rosa.
* “Minha pátria é minha língua” – reconstrução de uma frase de Fernando Pessoa, “Minha pátria é a língua portuguesa”, que intitula texto presente no “Livro do desassossego”.
* “flor do Lácio” – refere-se ao poema de Olavo Bilac, que assim começa “Última flor do Lácio, inculta e bela”. Lácio é a região da atual Itália onde surgiu o latim, há mais de 2 mil anos.
* “ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo” – os pronomes possessivos “seu” e “sua” geram ambiguidade – se digo a alguém “O Roberto tem medo da sua mulher”, o ouvinte pensará que o medroso teme a esposa de quem? O uso do “dele”, na frase, apesar de não recomendado pela Gramática, resolveria a ambiguidade. Sendo prágmático, é adotado pelo povo, que dirá “O Roberto tem medo da mulher dele”. E acaba sendo adotado também por repórteres da TV Globo, rede mais formal.

Por outro lado, ao invés de uma interpretação frase a frase da letra, é possível uma interpretação global. Em suma, eu diria que a a música é uma declaração de amor à língua portuguesa. Não apenas no sentido expresso, como no verso “gosto de ser e de estar”, mas também perceptível quando Caetano, um dos poucos letristas que também pode ser considerado um poeta, usa e abusa da versatilidade de nossa língua ao compor seus versos, exaltando até a sonoridade desta.

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NOVA LEI: AGORA, HOMENS PODEM SER ESTUPRADOS!

Nossa!

Nossa!

Até o dia 07 de agosto de 2009, nenhum homem podia ser estuprado: a lei não permitia. Explicando melhor: o artigo 213 do Código Penal definia estupro como “constranger mulher à conjunção carnal, mediante violência ou grande ameaça”. A linguagem do Direito é chamada por alguns linguistas de “juridiquês”, um “dialeto” composto por rebuscamento e jargões. “Conjunção carnal”, por exemplo, refere-se à penetração do pênis (e apenas do pênis) na vagina (e apenas na vagina). Todo ato diferente seria um “ato libidinoso diverso da conjunção carnal” e não seria, portanto, estupro, mas, sim, “atentado violento ao pudor” (artigo 214 do CP). O homem que praticava apenas sexo anal, à força, com uma mulher não era considerado, portanto, estuprador, aos olhos da lei (embora a pena prevista para os dois crimes atualmente fosse a mesma: reclusão de seis a dez anos).

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CACÓFATOS – "VAI DEIXAR O CUCA IR?"

O apresentador (não sei o nome) de um programa esportivo e humorístico, na MTV, exibido em 16/06/09, após o time do Flamengo, então comandado pelo técnico Cuca, perder de cinco a zero para o Coritiba, disse algo semelhante a isto: “O Flamengo não vai deixar o Cuca ir” (/cu cair/).

Um cacófato intencional, muito bem aplicado. Embora a piada não seja inédita (e qual é?). Procuro no Google por “Cuca ir” e acho 467 resultados. Talvez nem todos com a mesma intenção, mas muitos obviamente sim. Inclusive muitos enquanto Cuca estava em outros times: “Botafogo não deixa Cuca ir”, “Presidente do Santos não deixa Cuca ir” etc. Umas até abusam do português para conseguir o efeito: “Se o Cuca ir pro Santos…” (o correto aqui seria “for pro Santos”, mas, entre o português correto e a piada de ocasião, sacrifiquemos a língua…).

Por outro lado, encontrei também entradas que aparentemente não são intencionais. Estas sim podem ficar mais feias: “E deixaram o Cuca ir dormir mais feliz.” Embora também seja verdade que o restante da frase quebra muito o cacófato – leia-a em voz alta, naturalmente, e perceba como o “cu cair” pode passar desapercebido, porque agora a frase exige outro ritmo, outra prosódia. Outra entrada semelhante, em reportagem escrita pelo jornalista esportivo Chico Lang: “Sem ter marcado gol ainda em 2009, o jogador pode ver sua vaga de titular na equipe de Cuca ir para Josiel.” – mais uma vez, um cacófato que talvez não seja pego em flagrante.

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PARTICÍPIO – VERBOS ABUNDANTES

PARTICÍPIO – VERBOS ABUNDANTES

INTRODUÇÃO – “Tinha aceito” ou “tinha aceitado”?
Muitas pessoas demonstram dúvidas sobre o uso do particípio de alguns verbos. “O certo é ‘eu tinha aceitado’ ou ‘eu tinha aceito’?”, perguntam. Entretanto, repare, se esta pergunta for respondida objetivamente, nunca a pessoa irá fazer a seguinte segunda pergunta: “E na voz passiva? E com o verbo ‘ser’?”

Como também nunca vemos este tipo de dúvidas em relação a alguns verbos (ninguém nunca perguntou, por exemplo: “O certo é ‘eu tinha ‘dormido’ ou ‘eu tinha *dormo’?”), supomos, assim, que a idéia que muitos falantes do português têm é que o particípio seja uma forma fixa, isto é, desconhecem a existência da abundância em alguns casos. O verbo abundante tem duas formas para o particípio, a regular (“pegado”) e a irregular (“pego”), que devem ser usadas em situações distintas. Não basta, portanto, saber que o mais correto é “tinha aceitado”. É necessário também saber que, por outro lado, se o verbo é outro (“ser”, por exemplo), a forma mais indicada pode ser outra (“foi aceito”).
Além da regra de uso de cada forma, também é importante conhecer, para o que deseja estudar as formas gramaticalmente recomendadas, algumas exceções consolidadas. Estudaremos neste artigo, portanto, os usos do particípio dos verbos abundantes.

PARTICÍPIO
O particípio é uma das chamadas “formas nominais” do verbo (assim como o infinitivo [ex.: “amar”] e o gerúndio [“amando”]). As formas nominais enunciam um evento de maneira impessoal.
O particípio entra na formação de alguns tempos compostos.

VERBOS ABUNDANTES
O verbo é chamado “abundante” quando possui duas formas para o particípio: além da regular, que praticamente todos os verbos possuem, o abundante é o que tem também uma forma irregular.
O particípio regular é formado pelo acréscimo da partícula “-ado” (na 1ª conjugação) ou “-ido” (2ª e 3as conjugações) ao radical do infinitivo. Exemplos:
Infinitivo Particípio regular
• aceitar  aceitado
• acender  acendido
• emergir  emergido

Já o particípio irregular, mais curto, tem este nome justamente por não possuir regra única para a sua formação.
• aceitar  aceito
• acender  aceso
• emergir  emerso

A língua portuguesa possui milhares de verbos. Destes, apenas uma pequena quantidade (por volta de uma centena) é abundante.

A gramática, por motivos sonoros, determina usos bastante específicos para cada forma.
Como norma, a forma regular é usada com os auxiliares “ter” e “haver”, na voz ativa.
• O garoto tinha aceitado o presente.

A forma irregular é utilizada principalmente com o verbo “ser”, na passiva.

• O presente foi aceito pelo garoto.

As formas irregulares também são frequentemente utilizadas com os verbos “estar”, “ficar”, “andar”, “ir” e “vir”. Exprimindo um estado, estas formas são usadas nas chamadas “passivas de estado”.

• As pessoas estavam exaustas.
• Ele ficou preso por mais de um mês.

Por fim, as variações irregulares também são usadas em orações reduzidas adverbiais.
• Findo o jogo, os torcedores foram embora.

DICA: dos tópicos acima depreendemos que, em geral, a forma regular é utilizada com “ter” e “haver”, na ativa. No restante dos casos, usamos a forma irregular. Há poucas exceções a este esquema (ver adiante).

Sobre o particípio, ainda convém lembrar que:
1) os pronomes oblíquos vêm sempre antes do verbo abundante (ou seja, a ênclise é inaceitável).

• As testemunhas se haviam omitido.
• As testemunhas haviam se omitido.
• As testemunhas haviam omitido-se. (inaceitável)
As duas primeiras construções são aceitas pela Gramática Normativa. A terceira, não. Como a segunda soa melhor (mais habitual) que a primeira, seria então a forma preferível.

2) não é incomum que o particípio costuma perca a função de verbo e passe a funcionar como adjetivo. Exemplos:

• criança calada
• pessoas apressadas

Nestes casos, se lêssemos “calada” e “apressada” como verbos, as expressões teriam um sentido diferente (criança calada por alguém etc.). Em “empresas privadas de segurança”, outro exemplo, se “privadas” é adjetivo, então estamos falando de empresas particulares de segurança; se é verbo, estamos falando de empresas que não dispõem de segurança – o sentido se alteraria bastante, portanto.

3) o particípio irregular concorda com o termo a que se refere, isto é, varia em gênero e número.

• Feitas as contas, o chefe resolveu demitir cinco funcionários.

PRINCIPAIS VERBOS ABUNDANTES
Segue-se uma lista com os principais verbos abundantes e suas duas formas de particípio:

Verbo Particípio regular Particípio irregular
1ª conjugação
aceitar aceitado aceito
afetar afetado afeto
dispersar dispersado disperso
entregar entregado entregue
enxugar enxugado enxuto
expressar expressado expresso
expulsar expulsado expulso
findar findado findo
fixar fixado fixo
fritar fritado frito
ganhar ganhado ganho
gastar gastado gasto
isentar isentado isento
juntar juntado junto
limpar limpado limpo
matar matado morto
misturar misturado misto
murchar murchado murcho
ocultar ocultado oculto
pagar pagado pago
pegar pegado pego
salvar salvado salvo
secar secado seco
segurar segurado seguro
soltar soltado solto
sujeitar sujeitado sujeito
vagar vagado vago
2ª conjugação
acender acendido aceso
benquerer benquerido benquisto
benzer benzido bento
defender defendido defeso
eleger elegido eleito
encher enchido cheio
envolver envolvido envolto
incorrer incorrido incurso
malquerer malquerido malquisto
morrer morrido morto
prender prendido preso
romper rompido roto
suspender suspendido suspenso
3ª conjugação
aspergir aspergido asperso
emergir emergido emerso
erigir erigido ereto
espargir espargido esparso
exaurir exaurido exausto
expelir expelido expulso
exprimir exprimido expresso
extinguir extinguido extinto
frigir frigido frito
imergir imergido imerso
imprimir imprimido impresso
inserir inserido inserto
omitir omitido omisso
submergir submergido submerso
surgir surgido surto
tingir tingido tinto

Há algumas observações a se fazer sobre o uso destes verbos, como se verá a seguir.

DIFICULDADES DE USO
Bastaria seguirmos a regra, se seguíssemos regras com tenacidade… A língua é viva, e algumas exceções surgiram.
1) Uso opcional da forma irregular na voz ativa

Aceita-se o uso de algumas formas irregulares também na voz ativa. Exemplos:

• aceito Exemplo: “O garoto tinha aceito o presente.”
• eleito
• entregue
• ganho
• gasto
• morto
• salvo

O que aconteceu com o particípio regular destes verbos é que muitos caíram em desuso, como “ganhado”, “gastado” e “pagado” (coincidência ou não, verbos relacionados a dinheiro) – apenas para este último termo, “pagado”, o Houaiss assinala que gramáticos notam a tendência de desaparecimento.

Note-se que na forma passiva, então, não há escolha, com estes verbos – usa-se mesmo a forma irregular.

2) Certas formas regulares, como “abrido”, “escrevido” e “fazido”, de tão arcaicas, acabaram sumindo dos dicionários. Houaiss não as registra e o Word as recusa. Tecnicamente, os verbos que as originaram (“escrever” etc.) não são mais abundantes, portanto, já que possuem apenas uma forma para o particípio.

Segue-se uma lista de verbos que possuem apenas a forma irregular para o particípio:
Verbo Particípio regular Particípio irregular
abrir – aberto
cobrir – coberto
dizer – dito
escrever – escrito
fazer – feito
pôr – posto
ver – visto
vir – vindo

O mesmo vale para os derivados destes verbos: “refazer”, “rever” etc.
Observe que o particípio de “vir”, “vindo”, é igual ao seu gerúndio.

3) O fenômeno inverso também aconteceu: muitas formas irregulares caíram em desuso, outras desapareceram.

“Corrupto”, de “corromper”, caiu em desuso (Houaiss não a registra), sendo usado apenas como adjetivo.

Formas que desapareceram: “cinto”, do verbo “cingir” (rodear, cercar); “colheito”, de “colher”; “coito”, de “cozer” (cozinhar); “defeso”, de “defender”; e “despeso”, de “despender” (gastar), são exemplos. Houaiss não as registra e o Word recusa algumas (aceita “cinto” por ter virado substantivo, “defeso” por ter virado adjetivo [= interditado, proibido] e “coito” por ser substantivo homônimo, isto é, de origem etimológica diferente).
Tais verbos também não são mais, a rigor, abundantes.

Abaixo, uma lista de verbos cujo particípio irregular hoje funciona apenas como adjetivo, na prática:

• absorver  absorto
• anexar  anexo
• aprontar  pronto
• cativar  cativo
• completar  completo
• concretar  concreto
• confundir  confuso
• corromper  corrupto
• entortar  torto
• estender (*)  extenso
• estreitar  estreito
• livrar  livre
• nascer  nato
• omitir  omisso
• quitar  quite
• restringir  restrito
• revolver  revolto (/ô/)
• torcer  torto

(*) pelo étimo, a grafia correta deste verbo seria com “x”, porém oficialmente é com “s”, embora nos derivados seja com “x”.

Nota-se uma tendência de que o mesmo ocorra com o verbo “incluir” (“incluso”), “inserir” (“inserto”) e “tingir” (“tinto”). Houaiss já nem registra os particípios irregulares na conjugação destes verbos.
“Imprimir” parece seguir o caminho semelhante, embora “impresso” também ainda seja usado (nem sempre) na passiva. No sentido de “introduzir”, “incutir”, deveria ser usado apenas na forma regular, segundo alguns: “Um novo ânimo foi imprimido à equipe com a chegada dos novos funcionários.” (Word recusou).

4) Algumas poucas formas regulares têm uso aceito (não por todos os gramáticos, por certo) em situações que pediriam a irregular (ex.: com o verbo “ser”), como “enchido” e “rompido” (Houaiss nem cita a existência de “roto”). Ou ainda “fritado”.

5) Em alguns meios, difundiu-se a idéia de que apenas o particípio irregular poderia ser utilizado, passando até a haver preconceito contra o uso da regular, mesmo na voz ativa!
Nem as gramáticas as mais conservadoras dizem isto. Exemplo:

• As lavadeiras tinham seco as roupas. (inaceitável)

6) Ainda por hipercorreção, muitas pessoas passaram a criar particípios irregulares em verbos não abundantes, como em “chegar”, “mandar”, “trazer” (“trago”, “chego”, “mando”). Estas formas ainda não foram abonadas nem por gramáticos nem por dicionários tradicionais. Exemplos:

• Eu teria mando a carta. (inaceitável)
• Já tinha chego há duas semanas. (inaceitável)

Algumas formas ainda mais estranhas já foram registradas na fala: “cego”, “prego” etc.

Atenção: apesar de estes verbos não possuírem este particípio irregular, corretores ortográficos como o Word não marcarão esta forma como errônea, porque, de fato, existem as palavras “mando”, “chego” etc. – são a conjugação destes verbos na 1ª pessoa do presente do indicativo: “Eu mando cartas, ainda.”, “Eu chego cedo todos os dias.” etc.
“Empregue” surgiu provavelmente por analogia com “entregue”. O Houaiss o registra, destacando que é utilizado mais em Portugal.
O verbo “pegar” ainda gera polêmica. Ele também não possuía o particípio irregular. Porém “pego” surgiu na língua cotidiana e com a frequência de uso acabou sendo aceito nos dicionários. Em alguns, aparece como brasileirismo. Outros, como o Houaiss, falam que “pego” tem sido usado em meios cultos, inclusive de Portugal. Muitos gramáticos ainda repelem o uso desta forma irregular. O Word aceita. O VOLP já o registra. O povo o utiliza até onde deveria ser usado apenas “pegado”, se fosse abundante: “Ele tinha pego a roupa.” Há também hesitações quanto à pronúncia do termo (/pêgo/ ou /pégo/), embora a maioria opte por /pêgo/.

7) Ainda no português não-padrão (que tenta transformar as exceções em regras), ocorreu também o fenômeno inverso: criação de particípios regulares para verbos que possuíam apenas o irregular, como “abrir”, “cobrir” etc., surgindo formas como “abrido”, “cobrido”, “dizido”, “escrivido”, “fazido”. Todos os gramáticos e dicionários tradicionais recusam todas estas formas.

8) Curiosidades:

• o verbo “frigir” (fritar) é abundante, tendo particípios “frigido” (paroxítona) e “frito”. De “frito” surgiu um verbo regular, “fritar”, cujo particípio é “fritado”.
Observe que a palavra “frígido(a)” (proparoxítona) tem o sentido de “frio”, “gélido” – quase o oposto de “frigido”.

• embora “morto” seja usado como particípio tanto de “matar” quanto de “morrer” (“Ele foi morto pelo vizinho”; “Ele estava morto quando abri a porta”), no Houaiss “morrer” é regular (participo: “morrido”) e “matar” é abundante (“matado” e “morto”).
No uso de “morto”, às vezes o verbo fica subentendido: “Morto em 2009, aos 50 anos, Michael Jackson era considerado um grande artista.”

• o Google é um bom termômetro sobre o uso dos particípios por uma camada mais escolarizada da população. O mecanismo de busca permite uma avaliação real do uso e aponta tendências. Exemplo:

Expressão Resultados Expressão Resultados
“tinha imprimido” 3.760 “tinha impresso” 3.960
“foi imprimido” 1.470 “foi impresso” 60.500

Descontando-se o fato de que às vezes ambas expressões concorrentes apareçam na mesma página, justamente que tratam de dúvidas de português, podemos observar nesta breve pesquisa alguns fatos. Expressões “corretas”, pela regra universal, seriam “tinha imprimido” e “foi impresso”. De fato, “foi impresso” domina sobre “foi imprimido”. Contudo, há hesitação na voz ativa, com “tinha impresso” tomando espaço de “tinha imprimido”.

RESUMO
Como se pôde observar, há movimentos em curso, na língua, no uso do particípio (como em tantos outros pontos da Gramática). Alguns gramáticos e eruditos já adotaram alguns usos novos, outros não. Assim, há hesitação “oficial” em alguns casos.
A regra básica é: forma regular (“-ado”, “-ido”) com “ter” e “haver”, na voz ativa; em todos os outros casos, usa-se a forma irregular.
Há exceções consolidadas: as formas regulares e as irregulares que desapareceram, e cujos verbos não são mais abundantes. Convém conhecê-las.
Há situações em que alguns consideram opcional o uso da forma regular ou irregular. A escolha da forma que segue a regra geral nunca será visto como errônea, nestes casos.
Por fim, um lembrete: em qualquer dúvida sobre o uso dos particípios, siga a regra básica. Quase nunca estará “errado”.

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ETIMOLOGIA (CURIOSIDADES): AUSTRÁLIA, ÁUSTRIA, AUSTRAL, AUSTRALOPHITECUS, PITECO, LSD, AUSTERIDADES, MACACO

O MACACO PSICODÉLICO

No latim, “auster” significava “austro”, o vento vindo do sul, e também a região de onde vinha este vento. O termo nos deixou o radical “austr-”, que está na origem do nome dos países Austrália e Áustria. Contudo, no caso deste último, há supostamente um erro, já que o país está no hemisfério Norte e ao norte da sede do Império Romano – supõe-se que seja uma tradução mal-feita para o original Osterreich, que significaria “Reino do Oriente”.

A moeda da Argentina, país bem ao sul da América do Sul, já se chamou “austral”.

O radical serviu também para nomear um gênero de hominídeos (primatas) que seria o antecedente direto do humano na escala evolutiva: o Australophitecus – “-piteco” vem do grego, significando “macaco” (o desenhista Maurício de Sousa, criador da Turma da Mônica, nas histórias de Horácio, faz conviver dinossauros e humanóides, e o representante destes, não por coincidência, se chama Piteco). Os australopitecos já eram bípedes e tinham a coluna ereta. Seu nome faz referência ao Sul (isto é, a África, onde se acredita que tenha surgido), e não à Austrália.

Em 1974 foram encontrados vários ossos fossilizados de uma fêmea desta espécie e os estudos indicam que ela viveu há cerca de 3 milhões de anos. Foi apelidada de “Lucy” – isto porque, na noite da descobertas, no toca-fita de um dos pesquisadores tocava a música “Lucy in the sky with diamonds”, dos Beatles.

Esta música também tem uma curiosidade linguística. Dizem que seu título seria um acrônimo (“acr(o)-” e “-ônimo” vêm do grego “ákros” e “ónoma”, respectivamente “extremidade” e “nome” – ou seja, acrônimo é a palavra formada pelas iniciais de outras): Lucy, sky e diamonds dariam em… “LSD” (abreviatura de ácido lisérgico, droga muito comum nos anos 60, causadora de alucinações). De fato, o disco dos Beatles ao qual a música pertence, é bastante criativo, experimental, isto é, psicodélico (“o que clareia o espírito”).

Voltando ao “auster”… E “austeridade”? Também veio deste radical? Não. Veio de “auster-”, de origem grega (“austeros”), que significava severo, (líquido) acre – o radical passou pelo latim e, depois do século XVI, foi usado para a criação de palavras relacionadas.

E a nossa palavra “macaco”? A origem é incerta, mas acredita-se que tenha vindo de uma língua africana, provavelmente o banto (por exemplo: no quinguana, falado no Congo, temos “makako”, indicando realmente um pequeno símio).

Fonte da imagem: Wikimedia

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